
O Sobrevivente, novo filme estrelado por Glen Powell, revisita o romance de Stephen King (sob o pseudônimo Richard Bachman) de 1982 e aposta numa distopia que já se sente dolorosamente próxima, e que, nas mãos de Edgar Wright, ganha aprofundamento na crítica social.
Ambientado num futuro que já não parece tão distante, O Sobreviventea companha Ben Richards, um trabalhador comum que aceita participar de um programa televisivo mortal para tentar garantir a segurança da família. Nesse futuro distópico, a sociedade transformou a violência em entretenimento barato e competidores são caçados ao vivo enquanto milhões assistem.
Sem alternativas e pressionado pela desigualdade que define cada aspecto da vida, Richards se torna a peça central de um jogo que usa miséria como espetáculo e audiência e a manipulação midiática como arma. Ao mesmo tempo em que luta para sobreviver, ele expõe as engrenagens de um sistema que prefere explorar seus cidadãos a oferecer qualquer chance real de dignidade.

A distopia do espetáculo
O longa abraça a crítica social como eixo central, explorando a miséria como produto, o sofrimento como entretenimento barato e a manipulação da massa se torna engrenagem de um sistema que prefere transformar vidas em números a resolver seus próprios problemas.
Aqui, como uma criança do inicio dos anos 2000, que viveu o auge das distopias no cinema, é impossível ignorar os paralelos com Jogos Vorazes. O protagonista que busca salvar sua família e se torna rosto de uma revolução é ilustrado pela frase “eu não quero ser o rosto da revolução, quero apenas salvar a minha família”, que facilmente poderia ser escrita para Katniss Everdeen.
O programa televisivo que exibe o tal jogo, o movimento das câmeras, o carisma manipulador do apresentador e a plateia vibrante também acenam diretamente para o clássico de 2012. Isso, no entanto, se deve não a uma inspiração direta ou algo parecido, mas sim ao fato de O Sobrevivente ter cada elemento necessário para ser uma distopia.
Isso, de certa forma, joga a favor do filme. Além de conter todas as características para se tornar um filme adorado pelos fãs de ação, há também um prazer real em voltar a ver distopias no cinema. Obras desse tipo marcaram toda uma geração e dialogam com temas atuais sob uma ótica mais distante, permitindo uma visão ampla sobre o todo.
A manipulação da massa, a espetacularização da pobreza e a idolatria de um poder corporativo formam a espinha dorsal do mundo apresentado, e é a partir disso que Ben Richards é empurrado para dentro do programa.
Não é o tipo de filme que tenta reinventar o gênero, mas funciona muito bem como uma sessão para assistir com a família e amigos. entregando entretenimento e estimulando debates.

O que funciona e onde o filme escorrega
Glen Powell segue sua jornada rumo ao estrelato. Desde Top Gun: Maverick, o ator tem se firmado como uma presença magnética, e aqui entrega um Ben Richards explosivo, carismático e movido por uma revolta que se justifica dentro do universo apresentado.
O personagem convence ao mostrar a desigualdade escancarada. Remédios, saneamento, qualidade de vida… tudo pertence a castas superiores, e o filme deixa claro como o sistema é desenhado para manter os mais pobres no fundo do poço. É nesse terreno que Powell encontra espaço para construir um protagonista que não quer ser herói, mas acaba sendo empurrado para o olho de uma revolução sugerida.
Mesmo com seus acertos, o ritmo do filme falha em certos momentos. O segundo ato perde parte do impacto quando a trama desacelera e algumas sequências se alongam mais do que deveriam. Com isso, a tensão, que vinha bem amarrada no início, se dilui. O filme dá a sensação de estar procurando um fôlego que volta a encontrar na reta final.
Quando retorna ao eixo, O Sobrevivente conclui de forma positivista, mas não sem antes ter deixado clara sua mensagem. Ben Richards vence com uma plateia – dentro e fora de tela – torcendo por seu sucesso.

Vale a pena assistir O SObrevivente?
O Sobrevivente não tem a ambição de ser um filme genial, mas consegue entregar aquilo a que se propõe. Quando a crítica social se encaixa ao ritmo mais elétrico, o longa funciona como entretenimento direto e relevante que, no fim das contas, fala sobre um país que aceita a espetacularização da morte e do sofrimento em uma realidade não tão distante assim.
O Sobrevivente está em cartaz nos cinemas.
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