
No final de A Odisseia, de Christopher Nolan, Odisseu volta a Ítaca, vence a prova do arco e mata os pretendentes que tomaram sua casa, entre eles Antínoo, vivido por Robert Pattinson.
Essa vingança quebra uma lei de Zeus, e o preço é o próprio trono: quem passa a reinar é o filho, Telêmaco (Tom Holland). Odisseu e Penélope não são mortos nem expulsos, mas ficam isolados e partem num barco para honrar os mortos da guerra de Troia.

Resumo
- Odisseu retorna a Ítaca, vence a prova do arco e mata os pretendentes, incluindo o líder deles, Antínoo.
- A chacina rompe uma lei de Zeus, e a punição é a perda do trono, que passa ao filho de Odisseu.
- Odisseu e Penélope ficam isolados e deixam Ítaca num barco veloz para honrar os companheiros mortos em Troia.

A ilha de Calipso e o salto no escuro
Antes de voltar pra casa, Odisseu passa 7 anos preso na ilha de Calipso, papel de Charlize Theron. E não é só o corpo que fica preso: uma flor de lótus mantém a memória dele apagada. Nesses anos, Odisseu esquece a própria tripulação e mal se lembra de Penélope e do filho. É Calipso quem o ajuda a recuperar essas lembranças e a entender o que deixou pra trás.
Ela também aponta o motivo do salto. Lá atrás, quando Odisseu cegou o ciclope, a criatura o amaldiçoou diante de Poseidon. O salto no mar é a forma de pedir desculpas ao Deus dos Mares, e Calipso deixa claro que Poseidon não vai matá-lo. Trata-se de um gesto de fé, não uma sentença de morte.
O peso da cena está em quem espera do outro lado. Poseidon é o maior inimigo de Odisseu justamente por causa do ciclope, que era filho dele. Se entregar ao mar é se entregar a quem mais tem razão pra odiá-lo. Odisseu salta, e o filme corta direto para o despertar dele em casa, num único gesto, a saída da ilha e a volta à sua terra.

A prova do arco e a morte dos pretendentes
De volta, o clímax é a prova do arco. Odisseu verga o grande arco que ninguém mais consegue, acerta o tiro impossível e então revela quem é diante dos homens que ocupavam sua casa.
A matança que vem em seguida é o coração do desfecho. Odisseu mata os pretendentes um a um, e o alvo central é Antínoo, o líder deles. A morte dele ganha peso por causa do irmão: Sínon, papel de Elliot Page.
No filme, os soldados são escolhidos na sorte, e é Sínon quem tira o palito curto para uma missão em Troia. Antínoo pede para ir no lugar do irmão, mas não é permitido.
Sínon acaba sendo o único homem deixado para trás quando os gregos se escondem no cavalo e, nessa versão, ele nem sabe do plano. Ao cravar o golpe final, Odisseu diz a Antínoo que a vergonha ligada a esse irmão se encerra ali. É a forma que Nolan encontra de dar humanidade ao vilão no instante em que ele cai.

Por que Odisseu quebra a lei de Zeus
Aqui está a inversão que Nolan faz e que muda todo o sentido do final. No relato antigo, matar os pretendentes é justiça: eles violaram a hospitalidade sagrada, e a morte deles é o acerto de contas dos deuses. No filme, o mesmo ato vira transgressão. A chacina rompe a lei de Zeus, e o herói passa de vingador legítimo a homem que foi longe demais.
É uma leitura muito de Nolan, na mesma linha do que ele fez em outros trabalhos: a vitória do protagonista vem com um custo que ele não consegue evitar. Odisseu ganha a guerra dentro da própria casa e, no mesmo movimento, perde o direito de reinar sobre ela.
Essa punição conversa com o que o filme constrói desde Troia. Odisseu volta da guerra carregando a culpa pela brutalidade que cometeu lá, pela forma como a violência apagou parte da humanidade dele.
Ao repetir essa violência em casa, contra os pretendentes, o filme trata a vitória menos como triunfo e mais como a continuação de uma ferida aberta. O exílio é o fecho natural dessa ideia.

O trono do filho e o exílio
A consequência de quebrar a lei divina é direta. Odisseu não retoma o trono. Quem assume o poder é o filho, papel de Tom Holland, que vira rei da terra que o pai lutou para recuperar.
Odisseu e Penélope, vivida por Anne Hathaway, não são jogados para fora. O destino deles é outro: ficam isolados, à margem, e escolhem partir. Pegam o barco mais veloz que têm e vão ao mar cumprir uma última dívida, honrar os guerreiros que morreram ao lado de Odisseu em Troia.
Esse encerramento cumpre a lógica de uma velha profecia sobre o herói: a de que a viagem dele nunca termina de fato em casa, e de que ainda restam contas a prestar aos mortos e aos deuses. Odisseu volta, vence e, mesmo assim, torna a partir.

O que Nolan mudou de Homero
Quem conhece o texto original vai notar as escolhas. A principal: no filme não existe o longo momento em que Penélope desconfia do marido e o testa antes de aceitá-lo. Esse reencontro cauteloso, que no relato antigo é a parte mais delicada, foi cortado. O peso todo recai sobre a ação e sobre o custo dela.
A segunda mudança é moral. A morte dos pretendentes deixa de ser justiça divina e passa a ser um crime contra Zeus, com punição própria. E o final em exílio, com o filho no trono e a viagem para honrar os mortos, fecha o filme num tom bem diferente do reencontro do original. Nolan trocou o descanso do herói pela sensação de que a conta nunca zera.
Há ainda uma mexida no elenco de personagens. Na tradição clássica, Sínon é primo de Odisseu e um trapaceiro que engana os troianos de propósito, ciente de tudo. No filme, ele vira irmão de Antínoo e um homem deixado para trás sem saber do plano, uma inversão que troca a esperteza pela desgraça e alimenta o rancor do irmão contra Odisseu.
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